
Ao falarmos sobre Física Médica, é comum que o nome de Marie Curie venha à mente, e isso se justifica: suas revelações sobre a radioatividade foram fundamentais para o emprego da radiação na área médica, em especial na identificação e combate ao câncer.
Ainda assim, a Física Médica não surgiu sozinha. Ao longo dos tempos, diversas mulheres colaboraram, de modo direto ou não, para que os exames e tratamentos de hoje sejam seguros, exatos e eficientes. Algumas exerceram a prática clínica diretamente, enquanto outras trabalharam nos bastidores da ciência, criando teorias e métodos que dão base à tecnologia médica em uso hoje.
Tais colaborações foram muito importantes para fazer da Física uma parceira da medicina moderna, assegurando progressos que afetam de forma direta a segurança dos doentes e a qualidade dos cuidados com a saúde.
Quem é Kimberly Applegate: referência em radiologia diagnóstica e proteção radiológica
Kimberly Applegate direcionou seus esforços com dedicação à radiologia diagnóstica, priorizando a aplicação da Física Médica para refinar a precisão dos exames e zelar pela segurança do paciente. Sua trajetória ganhou notoriedade na análise e no aprimoramento de exames que empregam radiação ionizante, como as radiografias e as tomografias computadorizadas.
Um dos pilares de sua atuação é a otimização da dose, ou seja, encontrar o ponto de equilíbrio entre a menor quantidade possível de radiação e a qualidade de imagem essencial para um diagnóstico correto. Tal premissa é crucial na Física Médica, assegurando que o paciente não seja exposto a radiação desnecessária, sem afetar a eficiência do exame.
Ela desempenhou um papel essencial na criação e na divulgação de protocolos clínicos focados na proteção radiológica, dedicando especial atenção à radiologia pediátrica. Por serem mais sensíveis aos efeitos da radiação, suas pesquisas ajudaram a enfatizar a necessidade de ajustar os parâmetros conforme o porte, a idade e o estado clínico de cada indivíduo.
Adicionalmente, seu trabalho fomentou a uniformização de práticas recomendadas em serviços de diagnóstico por imagem, colaborando na elaboração de orientações que instruem profissionais da saúde sobre o uso seguro e consciente da radiação. Tais orientações influenciam a prática diária, promovendo exames mais seguros e homogêneos.
É também importante mencionar sua dedicação à capacitação e à conscientização de profissionais, ressaltando o papel do Físico Médico como um agente indispensável na proteção do paciente.
Rosalyn Yalow: a cientista que transformou o diagnóstico na área da Medicina e os avanços da Medicina Nuclear
A jornada de Rosalyn Yalow ilustra de maneira notável como a física teórica pode ser utilizada para revolucionar a medicina clínica. Durante um período em que as mulheres enfrentavam grandes obstáculos para ingressar nas ciências exatas, Yalow não apenas brilhou como Física Nuclear, mas também criou um instrumento que se tornou essencial para a endocrinologia e para os diagnósticos contemporâneos.
O foco principal de sua pesquisa foi a criação da técnica de Radioimunoensaio (RIA). Antes dessa descoberta, os médicos não tinham ferramentas adequadas para quantificar substâncias presentes em níveis muito baixos no organismo, como hormônios, vitaminas e enzimas.
A inteligência de Yalow consistiu em aplicar o conceito da radioatividade para desenvolver uma técnica de detecção altamente sensível. Utilizando a abordagem de união competitiva entre antígenos identificados por isótopos radioativos e os antígenos presentes no sangue do paciente, foi viabilizada a medição de substâncias com uma precisão incomparável.
Essa descoberta possibilitou progressos significativos, como a identificação precoce do hipotireoidismo congênito em bebês e a avaliação precisa dos níveis de insulina em indivíduos com diabetes.
Além de sua significativa contribuição técnica, Rosalyn Yalow desempenhou um papel fundamental na valorização da presença feminina na ciência. No ano de 1977, ela foi a segunda mulher a ser agraciada com o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina na história. Sua decisão de não patentear a técnica de Imunodetecção por Radioimunoensaio (RIA), possibilitando que laboratórios ao redor do planeta a aplicassem sem restrições, evidencia seu compromisso ético em promover a integridade na saúde global.
A sua carreira na Fisica Médica evidenciou a relevância da colaboração entre diferentes disciplinas. Yalow revelou que compreender os mecanismos nucleares e como a radiação interage com a matéria é fundamental para desvendar os enigmas do corpo humano, proporcionando diagnósticos mais ágeis, confiáveis e eficazes para milhares de pacientes.
Conheça Edith H. Quimby: a mulher que estruturou a Física Médica moderna
Edith Hinkley Quimby teve um papel essencial para estabelecer a Física Médica como um campo científico bem estruturado e vital nos hospitais. Numa época em que a presença de mulheres na ciência era incomum e muitas vezes subestimada, ela não só conquistou seu espaço, como ajudou a criar novos. Seu trabalho foi fundamental para mudar a forma como a radiação era usada na medicina, transformando-a de algo mais empírico para uma área baseada em cálculos exatos, controle da dose e considerações biológicas.
No Memorial Hospital for Cancer and Allied Diseases (hoje Memorial Sloan Kettering Cancer Center), Quimby focou no estudo da quantidade de radiação usada na radioterapia. Ela criou métodos mais seguros e organizados para calcular a dose correta para cada paciente, melhorando a eficácia dos tratamentos contra o câncer e diminuindo os perigos. Seu trabalho ajudou a criar as bases que sustentam o planejamento da radioterapia atualmente.
Além de sua contribuição técnica, Edith Quimby foi muito importante para organizar a profissão de Físico Médico. Em um tempo em que essa função não estava bem definida, ela mostrou que ter um Físico no hospital era essencial para garantir segurança, qualidade e precisão científica. Ela também ajudou a fundar a American Association of Physicists in Medicine (AAPM), e depois se tornou a primeira mulher a liderar a associação, um feito histórico que mostra sua capacidade e a força das mulheres em um campo dominado por homens.
Sua história representa persistência, excelência e liderança. Edith Quimby provou que a ciência não tem gênero e que a presença feminina muda estruturas, expande visões e fortalece áreas inteiras do saber. Ao criar bases técnicas que ainda guiam a radioterapia e a proteção radiológica, ela não só salvou vidas por meio da ciência, como também abriu portas para que mais mulheres pudessem trabalhar em laboratórios, hospitais e em posições de liderança.
Texto elaborado por Beatriz Fedalto, Karoliny Garcia e Natália Garlet - Estagiárias em Física Médica.