
A recente estreia da série Emergência Radioativa trouxe novamente ao debate público os riscos associados a emergências radiológicas. A temática remete ao acidente com Césio-137 ocorrido em Goiânia, em 1987, referência internacional pela magnitude da contaminação e pelas falhas institucionais, regulatórias e operacionais envolvidas.
O acidente teve origem no Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), que, ao transferir suas atividades em 1985, abandonou um aparelho de teleterapia contendo Césio-137 em um prédio sem controle de acesso. A ausência de normas técnicas claras e fiscalização efetiva contribuiu para o cenário de risco.
Em 13 de setembro de 1987, catadores de sucata removeram partes do equipamento e violaram a cápsula selada, liberando cloreto de césio, material altamente dispersível. A luminescência do material levou à sua manipulação e distribuição, favorecendo a contaminação ambiental e humana, especialmente em áreas com baixo acesso à informação.

A identificação do evento ocorreu apenas em 28 de setembro, quando sintomas levaram à suspeita de contaminação. No dia seguinte, medições confirmaram níveis elevados de radiação, e iniciou-se a resposta emergencial. O acidente foi classificado como nível 5 na Escala Internacional de Eventos Nucleares.
Foram monitoradas 112.800 pessoas, com 249 casos de contaminação significativa. Houve casos graves de Síndrome Aguda da Radiação e quatro óbitos. Além dos efeitos clínicos, ocorreram impactos psicológicos e estigmatização social.

O Césio-137, com meia-vida de cerca de 30 anos, emite radiações beta e gama, permitindo múltiplas vias de contaminação: contato direto, ingestão e dispersão ambiental.
A resposta envolveu isolamento de áreas, demolição de imóveis contaminados e geração de grande volume de rejeitos radioativos, destinados a depósito em Abadia de Goiás. O evento também gerou impactos econômicos, deslocamento de famílias e discriminação social.
A sequência dos eventos evidencia como falhas institucionais, ausência de fiscalização e desconhecimento da população podem ampliar um incidente localizado.
O acidente impulsionou mudanças na governança nuclear brasileira. A Constituição de 1988 centralizou na União a regulação do uso de materiais radioativos, e foram implementados mecanismos de rastreabilidade, exigências para descarte e maior rigor na qualificação profissional. Também foram estruturados sistemas de resposta a emergências.
Avanços tecnológicos reduziram riscos, com a substituição de fontes radioativas seladas por equipamentos de geração elétrica. Ainda assim, a existência de fontes ativas exige vigilância contínua e cultura de segurança.
Para a Física Médica, o caso permanece como referência na relação entre tecnologia, regulação, resposta emergencial e impacto humano, consolidando a radioproteção moderna.
Texto elaborado por Rodrigo Hann - Físico Médico
Referências:
AGÊNCIA INTERNACIONAL DE ENERGIA ATÔMICA. The radiological accident in Goiânia. Viena: IAEA, 1988.
AGÊNCIA INTERNACIONAL DE ENERGIA ATÔMICA. Dosimetric and medical aspects of the radiological accident in Goiânia in 1987. Viena: IAEA, 1998. (IAEA-TECDOC-1009).
AGÊNCIA INTERNACIONAL DE ENERGIA ATÔMICA. Goiânia, ten years later: proceedings of an international conference. Viena: IAEA, 1998.
GOIÁS (Estado). Secretaria de Estado da Saúde. Césio 137: 37 anos. Organização de Patrícia Almeida da Silva Machado. Goiânia: SES-GO, 2024.
SANTOS JUNIOR, Antonio dos. O acidente radiológico de Goiânia (Césio-137). In: CONGRESSO DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO DA UEG, 3., 2016, Pirenópolis. Anais [...]. Pirenópolis: UEG, 2016.
SCHUMANN, Berta; BERWIG, Juliane Altmann. O desastre radiológico do césio 137: lições após 30 anos da sua ocorrência. Direito, Estado e Sociedade, Rio de Janeiro, n. 54, p. 262-286, jan./jun. 2019.