O Papel do Físico Médico na Definição de Estratégias de Controle de Qualidade em Medicina Nuclear
Na prática da física médica aplicada à medicina nuclear, a garantia da qualidade e da segurança do paciente depende diretamente da precisão e da estabilidade dos sistemas de imagem e medição. Nesse contexto, cabe ao físico médico assumir responsabilidade direta pela execução de testes de aceitação e pela implementação de programas rotineiros de controle de qualidade (CQ), assegurando que os equipamentos mantenham desempenho adequado ao longo de sua operação clínica.
Entretanto, a execução eficaz dessas atividades exige mais do que a aplicação de protocolos. É fundamental que o profissional possua conhecimento abrangente de diferentes metodologias e documentos de referência, compreendendo suas finalidades, limitações e contextos de aplicação, de modo a selecionar a estratégia mais apropriada para a realidade operacional de cada serviço.
A multiplicidade de guias e normas
Diversas organizações internacionais, como a NEMA (National Electrical Manufacturers Association), a IAEA (Agência Internacional de Energia Atômica) e a AAPM (American Association of Physicists in Medicine), possuem recomendações amplamente utilizadas no controle de qualidade em medicina nuclear. Embora compartilhem fundamentos semelhantes, esses documentos apresentam diferenças relevantes em relação ao rigor metodológico, às condições de teste e às frequências recomendadas.
A NEMA, por exemplo, constitui referência consolidada para caracterização de desempenho e especificações de fabricantes, fornecendo metodologias quantitativas rigorosas conduzidas sob condições altamente controladas. Contudo, muitos desses procedimentos podem apresentar aplicabilidade limitada na rotina clínica, seja por exigirem condições experimentais específicas, seja por demandarem recursos nem sempre disponíveis em serviços já estabelecidos.
Em contraste, protocolos publicados pela IAEA e documentos da AAPM, apresentam abordagem mais direcionada à prática clínica, priorizando testes com maior viabilidade operacional e relevância diagnóstica. Essa perspectiva reconhece que protocolos de aceitação e constância devem ser compatíveis com a infraestrutura disponível, sem comprometer a confiabilidade das avaliações realizadas.
A decisão baseada no equipamento e nos recursos disponíveis
A escolha metodológica não deve ocorrer de forma arbitrária. O físico médico deve considerar tanto as características do equipamento avaliado quanto os materiais disponíveis no serviço, incluindo fontes, simuladores, phantoms e dispositivos específicos fornecidos pelo fabricante.
A própria IAEA destaca que programas de controle de qualidade representam, frequentemente, um equilíbrio entre o cenário ideal e as limitações práticas do ambiente clínico. Dessa forma, adaptações metodológicas são frequentemente necessárias para adequar protocolos às condições locais, preservando a validade técnica dos resultados obtidos.
O papel do julgamento profissional
O domínio de múltiplas metodologias permite ao físico médico estabelecer distinção adequada entre testes essenciais e complementares para a estabilidade operacional de cada equipamento. Mais do que seguir recomendações normativas, é necessário compreender profundamente os parâmetros avaliados e os critérios utilizados por cada protocolo.
Essa compreensão é particularmente relevante na definição de níveis de ação e tolerâncias operacionais. Sem conhecimento detalhado sobre a determinação de parâmetros, deteriorações graduais do sistema podem não ser identificadas precocemente, comprometendo a qualidade diagnóstica antes da ocorrência de falhas evidentes.
Em síntese, a capacidade do físico médico de transitar criticamente entre diferentes metodologias e guias de referência é fundamental para que o controle de qualidade não seja apenas de caráter meramente regulatório. Quando adequadamente estruturado, o programa de CQ torna-se uma ferramenta efetiva de otimização clínica, ajustada à infraestrutura disponível e orientada à obtenção de imagens de elevada qualidade diagnóstica com a menor dose possível ao paciente.
Texto elaborado por Rodrigo Hann - Físico Médico especialista em Medicina Nuclear
Referências:
AMERICAN ASSOCIATION OF PHYSICISTS IN MEDICINE. Acceptance testing and annual physics survey recommendations for gamma camera, SPECT, and SPECT/CT systems: the report of AAPM Task Group 177. Alexandria, VA: AAPM, 2019. (AAPM Report, n. 177).
INTERNATIONAL ATOMIC ENERGY AGENCY. IAEA quality control atlas for scintillation camera systems. Vienna: IAEA, 2003. (STI/PUB/1141).
INTERNATIONAL ATOMIC ENERGY AGENCY. Nuclear medicine resources manual: 2020 edition. Vienna: IAEA, 2020. (Human Health Series, n. 37).
INTERNATIONAL ATOMIC ENERGY AGENCY. Quality assurance for SPECT systems. Vienna: IAEA, 2009. (Human Health Series, n. 6).
NATIONAL ELECTRICAL MANUFACTURERS ASSOCIATION. NEMA NU 1-2023: performance measurements of gamma cameras. Rosslyn, VA: NEMA, 2023.
SOCIEDAD ESPAÑOLA DE FÍSICA MÉDICA; SOCIEDAD ESPAÑOLA DE MEDICINA NUCLEAR E IMAGEN MOLECULAR; SOCIEDAD ESPAÑOLA DE PROTECCIÓN RADIOLÓGICA. Protocolo de control de calidad de la instrumentación de medicina nuclear: versión 2020. 1. ed. Madrid: SEFM; SEMNIM; SEPR, 2021.
Por tiago em 08/05/2026 às 14:01